Medo de escrever
Achava muito engraçado o fato de Rachel de Queiroz dizer que escrever para ela era uma obrigação, que ela cumpria como um trabalho, nunca como um prazer. Sentia que era impossível não trabalhar nisso com prazer, porque era exatamente o que eu sentia. Bem, obviamente não dependia disso para viver, comecei ainda jovem, e diferente de Rachel de Queiroz, jornalista por convicção, via a Literatura como uma forma de expressão, um fim, e não um meio de vida, um instrumento de trabalho.
Hoje olho aterrorizada para meus textos e penso no tempo que perdi rindo da saudosa Rachel. Cada vez que sento para escrever, penso que deveria estar fazendo algo melhor. Não que não goste mais de escrever, longe disso. Mais do que gosto, o que me move é uma necessidade de expressão. Apesar disso, o medo de estar desperdiçando tempo, o meu ou de meus possíveis leitores, corrói a minha alma.
É cada vez mais frequente a sensação de que meus escritos são inúteis. A evolução dos textos e a comparação, autocrítica é claro, com outros autores, levam a incerteza daquilo que escrevo. A isso soma-se uma incapacidade total e absurda de aceitar críticas, e pronto, mais um texto vai para a gaveta, muitas vezes sem revisão. A insegurança é tanta que não leio mais meus textos antigos, por medo de achar que escrevia melhor antes do que agora.
O mais curioso é o fato de eu insistir em escrever, apesar do medo do fracasso. É algo quase doentio, masoquista, mas explicável. O medo advém da insegurança, e não me sinto insegura ao escrever. Escrever é algo muito agradável para mim. O medo do fracasso é que torna a experiência dolorosa. É como se eu fosse uma vendedora de sonhos, e no momento em que as pessoas levassem meus sonhos para casa eles se transformassem em pesadelos. E o que é pior, são produtos sem devolução. Uma vez que você lê um texto, ele é seu, pertence a quem leu, e não há nada que o escritor possa fazer para mudar o texto ou a visão de quem se apropriou dele. O que importa se o texto foi produzido com amor, se no final ele vai ser destroçado e aquele que o escreveu julgado sem misericórdia? O amor não importa. Como se escreve não importa, o que motiva não importa. Só o resultado importa. As leituras, as críticas importam.
O que antes eu achava engraçado, agora eu invejo: a capacidade de produzir algo de qualidade, mesmo não gostando do que faz. Porque a realidade do meu medo me torna incapaz de ver o que realmente significa dar vida a um texto, para mim. Rachel era bem realista: ela não gostava, fazia porque precisava, ponto. Tinha coragem de se expor, não por capricho, e sim porque não tinha outro jeito. Eu me escondo atrás de diários virtuais e cadernos velhos, que não mostro nem para meu marido. Sou uma covarde. Não me exponho por capricho, e quando o faço, as críticas acabam comigo. Talvez supere isso, talvez tente outra coisa. Medo é algo que só quem sente sabe quando deve enfrentar.
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